9 de julho, dia do Guru Purnima

GURU PURNIMA – O Dia do Mestre Paramahamsa Prajnanananda
(na Astrologia Veda é a lua cheia mais forte do ano)

Guru Purnima é uma tradição indiana de oferecer reverente devoção ao Guru. “Purnima” é a palavra Sânscrita para lua cheia. Guru Purnima, o “Dia do Mestre”, é sempre comemorado no dia da lua cheia do mês de julho. E, neste ano de 2017, é celebrado no domingo, 09 de julho.

“Nunca sinto falta de vocês quando estou longe, porque todos estão comigo agora e estarão para todo o sempre. Quer estejamos vivendo aqui, ou transpondo os portais da morte, estaremos sempre juntos em Deus.” Paramahansa Yogananda

No Ocidente amorosamente celebramos certos dias para homenagearmos nossos pais. Esses dias são conhecidos como “Dia dos Pais” e “Dia das Mães”. Nestes dias, vamos ver nossos pais e os cumprimentamos. Estamos expressando assim nossa gratidão por eles terem sido os instrumentos de nosso nascimento em um templo corporal e por possibilitarem o jogo da alma no altar terreno. A gratidão é o encanto da vida que diminui o ego e traz o amor.

No Taittariya Upanishad 1:11:2, declara-se: “-“Ame a mãe como o Divino, ame o pai como o Divino e ame o guru-mentor como o Divino”. O guru-mentor é considerado como mãe e pai ao mesmo tempo, pois ele é o instrumento para o renascimento espiritual da pessoa. A iniciação é o renascimento e a direção, e as instruções práticas do guru são o alimento divino da nossa vida espiritual.

Há milhares de anos as pessoas na Índia têm celebrado o “Dia do Mestre” – o Guru Purnima. É um dia dedicado ao divino guru-mentor, que dedicou sua vida à evolução espiritual de seus discípulos-crianças. Neste dia, os discípulos visitam o guru-mentor e oferecem gratidão, com amor e devoção, por aquilo que lhes foi entregue pela graça do mestre e seus ensinamentos.
Este Guru Purnima, o “Dia do Mestre”, é comemorado no dia da lua cheia do mês de julho.
É o aniversário do grande sábio Maharishi Vyasa, autor do épico Mahabharata, (que inclui o Bhagavad Gita), o Bhagavatam, o Brahmasutras, 18 Puranas e editor dos Vedas.
No dia da lua cheia há luz tanto de dia como de noite, simbolizando conhecimento ou iluminação. Assim como a luz dispersa a escuridão, através do conhecimento a ignorância desaparece. O auto­conhecimento é aquela luz que nos liberta da incerteza da escuridão do sofrimento e da infelicidade na vida.

O Mundaka Upanishad 1:2:12 diz: “Para adquirir o conhecimento daquilo, deixe-o somente aproximar-se, com o combustível sacrifical na mão, de um guru-mentor que conhece a escritura e está estabelecido em Brahma”. Aqui são sublinhadas duas qualidades do mentor divino: pessoa com autoconhecimento e aquele que está sempre imerso na consciência de Deus.

Fogo Oculto
Os rishis da Idade védica viviam em eremitérios, geralmente situados na floresta, à margem de um rio ou ao lado de uma montanha, onde há abundância de madeira para o fogo. Assim também o discípulo se aproxima do guru-mentor com a madeira para o fogo sacrifical. O guru-mentor é uma chama ardente queimando com a luz eterna do conhecimento e com o calor do amor. Essa chama pode queimar tudo o que toca, inclusive as tendências negativas. Se o discípulo é como madeira seca para o fogo, livre de todo o ego, rapidamente pegará fogo e será purificado. O estudante repleto de ego é, pelo contrário, como madeira molhada, que só faz fumaça. Na madeira o fogo se esconde, imanifesto.

O Upanishad diz: “como o óleo na semente de sésamo, manteiga no leite, água na corrente do rio e fogo na madeira, assim também a alma permanece invisível na vida de cada um”. Madeira seca e fogo se unem após encontrar o guru-mentor. Este é um fogo sacrificial – uma oferenda de todas as negatividades com oração pela purificação. Quando a ignorância é oferecida à luz e ao calor do amor, torna-se uma comunhão sagrada de transformação.

Chaturmasyam, os Quatro Meses Sagrados
Esses quatro meses, de junho a setembro, são considerados na Índia os meses da monção, quando ocorrem chuva e enchentes extremas. Nos tempos antigos, os aspirantes espirituais e o guru-mentor eram geralmente mendigos caminhantes que viajavam longas distâncias. Eram geralmente monges que nunca se apegavam a nenhum lugar, vagando e distribuindo o divino néctar da sabedoria. Mas, durante os quatro meses da estação chuvosa, o guru-mentor e os buscadores discípulos viviam em um só lugar e submetiam-se a um treinamento rigoroso. Essa tradição é conhecida como chaturmasya-vratam e continua ainda hoje. Começa com o dia Guru Purnima.
Mesmo se a vida do professor e do discípulo são unidas pela vida inteira, estes quatro meses da monção têm verdadeiramente uma mensagem espiritual profunda. Após os escaldantes meses do verão chega a chuva tropical e torrencial, trazendo nova vida para as plantas, enchendo o rio e esfriando a terra. Cada pessoa é escaldada com três etapas: sofrimentos materiais, psicológicos e imprevisíveis. A mente do discípulo, pela graça do guru, é liberta do ódio, da raiva, do ciúme, do ego etc. e regada pelo amor divino. Isso é chuva. A árvore da vida floresce e frutifica com torrentes de amor. O conhecimento surge na vida. E como o rio enche-se com águas correntes para o oceano, a vida consciência individual funda-se no oceano.
Os quatro meses de treinamento permitem ao estudante equipar-se com as quatro qualidades do discípulo, purificar-se e até mesmo eliminar os quatro instrumentos interiores.

As quatro qualidades do discípulo são:

1. Viveka: discriminar o que é bom do ruim, saber o que é real e irreal.
2. Vairagya: não apego, viver a vida do desapego interior.
3. Shramadamadi shatsampati: seis riquezas como o controle mental, o controle sobre os sentidos, o amor de um objetivo maior na vida, fé nos ensinamentos das escrituras e dos professores, paciência e equilíbrio na vida.
4. Mumukshutvam: desejo pela liberação.

Os quatro instrumentos interiores são: mente, intelecto, ego e memória.

O Guru e o Discípulo
A relação entre o guru-mentor e o discípulo é divina, visando somente o autodesabrochar. Eles servem um ao outro com suas capacidades e o objetivo é sempre espiritual. Durante os quatro meses de treinamento, o discípulo, através do serviço e da humildade, aprende o estilo espiritual da vida, sob a supervisão direta do mestre. O mestre trabalha para transformar a vida do aluno, removendo o ego e a ignorância.
Há uma linda história relacionada com a vida do sábio Vyasa e de seu discípulo Jaimini. Jaimini era um grande estudioso e um discípulo sincero de Vyasa, mas tinha orgulho de seu conhecimento intelectual. Um dia, Vyasa ditava uma escritura e Jaimini fazia anotações. Vyasa compôs um verso para enfatizar uma questão: “valavad indriya gramam panditan apakarshanti” – “os sentidos são tão poderosos que o homem de conhecimento às vezes comete erros”.
Após escutar isso Jaimini pensou: “Não é possível. Se alguém é um homem de conhecimento, como poderia ser dominado pela tentação dos sentidos? Pelo contrário, ele os vencerá”. Pensando assim, modificou o verso para dizer: “valavad indriya gramam panditanapakarshanti”- mudando então as palavras do Mestre para: “Mesmo se os sentidos forem poderosos, o homem de conhecimento está livre de erros”.
Onisciente, Vyasa não revelou nada. Ele queria ensinar ao discípulo a verdade da vida de forma diferente. Naquela tarde, Vyasa disse a Jaimini que tinha de ir fazer um trabalho urgente em um lugar distante e que ficaria ausente por vários dias. Confiou a Jaimini os cuidados com o fogo sacrificial. Então Vyasa partiu. Naquela noite, após a oração, Jaimini retirou-se para o quarto do fogo sacrificial para meditar. Fora havia uma tempestade com chuva e vento muito forte. Jaimini escutou alguém batendo na porta. Ele abriu a porta e viu uma senhora bonita e jovem. Perguntou o que podia fazer por ela. Ela disse: “Estou a caminho de minha aldeia, mas não posso ir por causa da chuva e da tempestade. Você poderia me dar abrigo durante a noite?”. Jaimini, movido pelo sentimento de hospitalidade, permitiu que ela entrasse e ficasse a noite na cabana. A jovem senhora disse que não era bom que um brahmachari (celibatário) ficasse no mesmo quarto que ela durante a noite. Assim Jaimini saiu e tentou dormir fora.
Começou o jogo da ilusão. Jaimini estava sentado em silêncio, mas sua mente ía para essa jovem senhora e sua beleza. Ele pensou com seus botões: “Seria bom passar a noite solitária conversando com ela”. Assim, ele bateu na porta e disse-lhe que lá fora estava frio e que seria bom ficar dentro.
Ela protestou, mas Jaimini forçou a entrada. Ele tentou falar com ela e olhava-a constantemente, o que a desgostou. Lentamente seus sentidos cresciam com tanto poder que ofuscavam sua consciência. Ele se aproximou dela, a tocou e lhe disse que ficassem juntos por uns momentos, para se divertirem e terem prazer.
Ela disse: “Você é um brahmachari, não deveria pensar assim. Isso não está certo”. Cego de paixão, ele tocou seus pés e pediu sua aprovação. Finalmente ela concordou, sob a condição de que ele se ajoelhasse como um cavalo. Então ela se sentaria em suas costas e ele daria sete voltas junto ao fogo sacrificial. Então poderia tê-la. Jaimini concordou.
Enquanto Jaimini tentava andar como um animal com uma senhora sentada em suas costas, ela começou a murmurar o verso que Vyasa tinha ditado de manhã e que Jaimini tinha modificado: “Mesmo se os sentidos são poderosos, um homem de conhecimento não comete erro”. Ao escutar isso Jaimini se deu conta de sua própria fraqueza. Ele se levantou para deixá-la, porém dois fortes braços o agarraram e seguraram. Não eram os tentadores braços da jovem, mas os braços de seu amado guru Vyasa.
Assim Vyasa ensinou a seu discípulo a verdade da vida e como estar sempre cuidadoso e atento em cada passo da vida. O guru transforma a vida do discípulo para torná-lo mais espiritual e mais precioso.

Que as bênçãos de Deus, de Vyasa e de todos os mestres divinos caiam sobre cada buscador espiritual e lhe dê o poder de alcançar o objetivo da vida. Com abundância de paz, êxtase e alegria por ocasião de Guru Purnima, o “Dia do Mestre”, deixe-nos oferecer a flor da devoção e do amor aos pés Divinos do Mestre e buscar sua sábia orientação em cada passo de nossa vida.


 

Fonte: Fraternidade PAX Universal